Diário de bordo- Educação para populações específicas.
Complemento o poeta e digo: “navegar é preciso e difícil!”. E não há pior situação do que viajar como clandestinos escondidos nos porões da sociedade, presos pelos grilhões da ignorância, da insegurança, do desrespeito e da injustiça.
O EJA propicia a jovens e adultos mais do que a alfabetização permite tirar o passaporte da cidadania e possibilita que se viaje nesta vida como respeitável ser humano. Como reflexo, o processo de escolarização dos filhos será mais sólido e a família poderá se estabelecer com respeitabilidade.
A prática como professora do EJA nos permite ver que muitos jovens e adultos depois desta dura viagem, aterrissam na sociedade de cabeça erguida. Infelizmente, muitos se perdem no mar das dificuldades cotidianas e cíclicas: não alfabetizados- baixos salários- excesso de horas para compensar. A educação ajudaria a reverter o quadro, porém, na luta pela sobrevivência a escola é abandonada várias vezes.
Nós, educadores do EJA somos, então, como um farol aceso em noite escura; l firmes, prontos para direcionar os navegantes que por lá passaram; sempre dispostos para contribuir a fim de que cheguem ao porto seguro em uma interação participativa com os que já estão em segurança na praia da dignidade.
Diário de Bordo
Ó do campo! Ó de bordo!
Nem todo rio desemboca no mar. Há os que perdem suas águas longe de seus destinos e gotejando no campo, evaporam sem se darem conta de sua importância.
Educação no campo é embarcar em um cruzeiro precário que promete atender à diversidade social brasileira em rios assoriados pelo êxodo rural rumo aos atrativos urbanos.
O analfabetismo rural, o atraso escolar das crianças que vivem no campo, são desculpas que o poder público emprega para justificar a “predestinação rural”.
Hoje a luta dos camponeses é por direitos mínimos para os trabalhadores e escola de qualidade para que os filhos permaneçam dignamente no campo, para que possam engajar-se na sociedade como cidadãos críticos, participativos e cientes de seu próprio valor.
O rumo das águas turvas retornam ao leito natural do respeito à diferença. A Escola da Alternância é uma das possibilidades para atender filhos de agricultores, para que tenham uma educação teórica de melhor qualidade, voltada para embasar a formação prática nas propriedades rurais. Entendo que este projeto possibilitou que a permanência das famílias e seus filhos no campo com garantia de direitos e emancipação social.
Anos atrás, trabalhei em uma cidade do interior de São Paulo e vi muita criança abandonando a escola na época da colheita por causa da distância, do cansaço etc.E, por isso, concordando com um calendário escolar diferenciado.
Enfim, termino essa empreitada assumindo que foi importante navegar nas linhas deste capítulo e conhecer iniciativas tão dignas e importantes para o homem do campo cujo olhar marejado de suor e lágrimas merece nossos aplausos.
Diário de bordo.
Ó de bordo! Terra a vista!
Cresci ouvindo uma música de uma peça publicitária que dizia assim: “ Seu Cabral ia navegando, quando alguém logo foi gritando: Terra a vista! Foi descoberto o Brasil.” E, víamos na TV, um desenho mostrando a armada de Cabral que chegava às praias brasileiras, onde era recebido pelos indígenas que gritavam: “Bem vindo, seu Cabral!”.
Quanto romantismo ingênuo permeou as páginas de nossa infância! Hoje, desvendando os processos históricos e as políticas sócio-culturais indígenas percebemos que o tal processo civilizatório não passou de uma desculpa esfarrapada para a aniquilação de várias nações constituídas, com autonomia política, econômica e cultural.
Repito: hoje, a educação indígena busca valorizar a cultura herdada, recuperar a dignidade de um povo por tanto tempo ultrajado, além se inserir-se em um Brasil tão diversificado.Lutam contra preconceitos, falta de apoio governamental e por leis que assegurem o respeito a seus valores e suas vidas.
Tive oportunidade de trabalhar alguns livros escritos e ilustrados por crianças indígenas. Foi muito interessante ver que meus pequeninos queriam escrever suas histórias para compartilhar com as crianças indígenas que vivem na Amazônia.
O estudo deste capítulo possibilitou a transformação de nosso conhecimento e atitudes em uma nova consciência que ora se estabeleceu.
Nosso respeito e admiração aos professores indígenas que pensam uma escola de qualidade “como o curso de um rio que corre para o mar.” (pág. 92. Educ. p/ pop específicas).
Agradeço por mais estes momentos a bordo deste transatlântico educacional!
Diário de Bordo
Ó quilambola de bordo!
Que nau trouxestes aqui? Que mares e mostros enfrentastes antes de atracar em portos brasileiros? Que turbulência ainda te rodeia neste mundo que se diz civlizado e democrático?Quanto de ti ainda temos por conhecer antes de te admirar completamente?
Embarquei no estudo da educação quilambola e me surpreendi como ainda temos o que aprender sobre a realidade destas comunidades. Interessei-me principalmente pelo aspecto do movimento negro vinculado às questões do meio ambiente sustentável e contra as barragens hidrelétrica no Vale do Ribeira.
Percebo que o trabalho que realizamos nas escolas urbanas sobre as comunidades quilambolas ainda é muito tímido diante da reiqueza de seu cotidiano: crianças, homens e mulheres desenvolvem brincadeiras, trabalhos e um sistema de "aprender-sistematizar-devolver o aprendizado" que merece mais nossa atenção.
As práticas educativas destas comunidades pautam-se pela aprendizagem coletiva que respeitas as diferenças de cada indivíduo e são muito dinâmicas e envolventes; também, muito diferentes da luta dos negros urbanos.
A cultura afro é um mar que precisamos aprender a navegar para assegurar que nosso trabalho também seja de qualidade.
Nilva R.Oliveira.
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